Desenvolvimento desigual amplia tragédias climáticas: estudo global mostra que vulnerabilidade pesa mais que a força dos desastres
Análise de mais de 7 mil eventos climáticos em 154 países revela que regiões com baixo desenvolvimento humano registram perdas humanas desproporcionais, mesmo quando enfrentam fenômenos menos intensos

Foto: UNICEF/Akash.
Durante décadas, o debate sobre desastres climáticos concentrou-se na intensidade dos eventos extremos: tempestades mais violentas, secas mais prolongadas, enchentes mais devastadoras. Mas uma nova pesquisa internacional sugere que o fator decisivo para determinar quem vive e quem morre diante dessas ameaças pode estar menos na natureza e mais nas condições sociais das populações atingidas.
Publicado nesta quarta-feira (17), na revista científica Nature Communications, o estudo liderado por Khalil Teber, da Universidade de Leipzig, na Alemanha, analisou 7.061 desastres relacionados ao clima ocorridos entre 1990 e 2020 em 154 países. A conclusão é contundente: a vulnerabilidade social supera a intensidade do perigo climático na determinação dos impactos humanos.
A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade de Leipzig, do Helmholtz Centre for Environmental Research (UFZ), da Universidade Técnica de Dresden e do centro de inteligência artificial ScaDS.AI, combinando dados climáticos, socioeconômicos e registros da base internacional EM-DAT, referência mundial em desastres.
“Mostramos que o desenvolvimento humano impulsiona grandes mudanças nos padrões globais de exposição e impacto, com a vulnerabilidade social superando a intensidade dos perigos na definição das consequências dos desastres”, afirmam os autores.
Oito vezes mais risco de morrer
Um dos resultados mais impressionantes do estudo refere-se às tempestades.
Os pesquisadores descobriram que moradores de regiões com baixo Índice de Desenvolvimento Humano Subnacional (sHDI) enfrentam um risco de morte 8,2 vezes maior durante tempestades quando comparados aos habitantes de áreas classificadas com desenvolvimento humano muito alto. No caso das enchentes, o risco é aproximadamente três vezes maior.
A desigualdade também aparece quando se observa o número total de vítimas.
Embora as regiões de baixo e médio desenvolvimento representassem 64,7% da população exposta aos desastres analisados, elas concentraram 83,1% das pessoas afetadas e 75,3% das mortes registradas.
Segundo os autores, fatores como infraestrutura precária, sistemas de saúde frágeis, menor escolaridade, renda reduzida e capacidade limitada de resposta tornam essas populações mais suscetíveis aos impactos climáticos.
“O desenvolvimento humano está intimamente ligado aos impactos dos desastres porque molda o contexto crítico em que perigos e exposição interagem para produzir perdas”, escrevem os pesquisadores.
O paradoxo da intensidade
Um dos aspectos mais inovadores do trabalho foi incorporar medidas objetivas da intensidade dos fenômenos meteorológicos.
Os cientistas analisaram variáveis como temperatura, precipitação, umidade, escoamento superficial, umidade do solo e rajadas de vento para caracterizar a severidade dos eventos.
O resultado desafia percepções comuns: em média, os desastres registrados em regiões mais desenvolvidas estavam associados a fenômenos climáticos mais intensos. Ainda assim, produziam menos mortes e menos perdas humanas relativas.
Em outras palavras, comunidades mais ricas e estruturadas conseguem resistir melhor até mesmo a eventos extremos mais severos.
Já nas áreas menos desenvolvidas, fenômenos relativamente mais fracos são suficientes para desencadear catástrofes humanas.
“Em regiões de baixo sHDI, maior vulnerabilidade e capacidade adaptativa variável significam que perigos mais fracos já podem gerar impactos significativos”, observam os autores.
O peso da desigualdade interna
A pesquisa também revela que as desigualdades dentro dos próprios países amplificam os riscos.
Os autores utilizaram indicadores subnacionais de desenvolvimento humano para comparar regiões mais ricas e mais pobres dentro de uma mesma nação. O resultado mostrou que áreas situadas abaixo da média nacional apresentam riscos significativamente maiores de sofrer perdas humanas.
O efeito foi particularmente evidente em enchentes e tempestades. Em regiões classificadas como de desenvolvimento médio, os territórios mais pobres chegaram a apresentar níveis de risco próximos aos observados em áreas de baixo desenvolvimento humano.
“Os resultados indicam que tanto as desigualdades entre grupos quanto as desigualdades dentro dos grupos são relevantes para determinar o risco”, destacam os pesquisadores.
Três décadas de transformação
O estudo também documenta mudanças importantes ao longo dos últimos 30 anos.
Em 1990, regiões de baixo desenvolvimento humano concentravam mais de 75% da população global exposta, 88% das pessoas afetadas e 65% das mortes relacionadas aos desastres analisados. Em 2020, esses percentuais haviam caído para 14%, 25% e 15%, respectivamente.

Foto: AFP Photo, Daniela Andrade. Fonte: Carta Capital
Grande parte dessa transformação está associada ao rápido avanço socioeconômico de países como China e Índia, cujas regiões migraram para categorias mais elevadas de desenvolvimento humano.
Ao mesmo tempo, a taxa global de mortalidade por desastres caiu quase 70% entre 1990 e 2020, impulsionada sobretudo pela redução das mortes associadas a enchentes e tempestades.
Apesar desse progresso, as regiões menos desenvolvidas continuam registrando índices de fatalidade entre três e cinco vezes superiores aos observados nas demais categorias de desenvolvimento humano.
O futuro preocupa
Os pesquisadores alertam que a África Subsaariana concentra atualmente a maior parte das regiões classificadas com baixo desenvolvimento humano. Ao mesmo tempo, projeções demográficas indicam que a região deverá registrar o maior crescimento populacional do planeta nas próximas décadas.
Esse cenário combina três fatores explosivos: aumento populacional, expansão urbana em áreas vulneráveis e intensificação dos extremos climáticos causada pelo aquecimento global.
“Reduzir a vulnerabilidade e construir capacidade adaptativa, especialmente em regiões de baixo sHDI, é a abordagem mais eficiente para reduzir impactos e riscos”, concluem os autores.
A mensagem central do estudo é clara: embora o planeta esteja entrando em uma era de eventos climáticos mais extremos, o número de vítimas não será determinado apenas pela força das tempestades, enchentes ou secas. Será definido, sobretudo, pela capacidade das sociedades de reduzir desigualdades, ampliar educação, fortalecer sistemas de saúde e oferecer oportunidades econômicas para as populações mais vulneráveis.
Num mundo cada vez mais aquecido, a justiça climática passa, inevitavelmente, pela justiça social.
Referência
Teber, K., Sippel, S., Krause, M. et al. A desigualdade no desenvolvimento humano amplifica o risco de desastres relacionados ao clima. Nat Commun 17 , 5067 (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-73873-9